Orquestra Sapônica

 Era março, chovia muito, todos os reservatórios estavam cheios, e a água corria em todos os rios, riachos e ribeirões. O frio de fim de tarde, o barulho da água correndo entre as rochas e o cheiro da terra molhada, era um convite ao passeio num lindo fim de tarde. Tudo era novo aos meus olhos; contemplar todo aquele cenário bucólico parecia sonho! Árvores que não passavam de dois metros, para mim pareciam gigantescas, o barro molhado e escorregadio, proveniente da construção duma estrada talvez fosse o melhor lugar do mundo para se brincar, pássaros cantando, era como chamar-me a conhecê-los. O que eu não esperava, era que ao cair da noite alguém fizesse tão amedrontadora sinfonia. Não havia luz elétrica, o céu estava nublado, e apenas a lamparina a querosene iluminava aquela pequena sala da casinha de taipe dos meus avós. Uma rede e uns quatro tamboretes eram as únicas mobílias daquele cômodo. E eu chorava, embalado naquela rede, pela minha mãe. O pavor remetia ao meu pensamento a certeza de que aquele som aterrorizante vinha do Céu, e eu o ouvia cada vez mais próximo, como se viesse em minha direção. Mesmo em companhia de toda a família, sentia-me indefeso. Era como se todos fossem impotentes diante daquela ameaça sapônica. Mais um instante e eu seria atacado pelos responsáveis por aquela cacofonia. O meu desespero só acabou, quando me chegou o sono.
Não me recordo de nada parecido com aquela noite.

Comentários

  1. Muito bacana, Rodrigues. Você também me fez voltar no tempo, quando criança, lá em Barbacena (Tangará) rsrsr.

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